Nossa pequena família se formou em Junho de 1999, faremos portanto, 12 anos de casados em Junho desse ano. Moramos durante 8 anos bem próximo ao Aeroporto de Congonhas. Uma verdadeira loucura. Mudamos para a Granja Vianna em Julho de 2007, porém freqüentávamos a região já a mais de 15 anos antes de virmos morar aqui e a identificação que já era enorme, nos levou a uma adaptação total e em pouquíssimo tempo. Hoje não consigo entender como as pessoas conseguem morar em São Paulo. Não vou mais nem na casa dos meus pais... mas por sorte, eles adoram a nossa casa e comparecem quase todos os finais de semana para nos visitar. Vivemos sempre com a casa cheia de amigos e parentes e adoramos nos reunir também com os pais dos colegas de escola da minha filha. Somos pessoas simples e felizes, com hábitos simples e tranqüilos. Como preparação física eu sempre fiz natação e treinei direto desde Agosto de 2000 até os dias de hoje em média de 4 vezes por semana. Atualmente faço Bike de 3 a 5 vezes por semana e futebol duas vezes. Também adoro arrumar coisas que quebram na casa, bem como instalar as melhorias que compramos. Uma das minhas paixões é cuidar das plantas do nosso Jardim. Não temos o hábito de assistir televisão em casa, nem TV normal e nem Cabo, acreditamos ser um passatempo longo, que agrega pouco conhecimento quanto comparado ao tempo de exposição. Me atualizo pelo rádio, e /ou internet, bem como compro na banca os jornais e revistas, de acordo com as matérias que possuem e apenas se elas me interessam. Temos o hábito de selecionar filmes em locadora para assistir. Cada um de nós três, tem direito a escolher um CD na locadora e ficar com ele o tempo que quiser, assim podemos ter tranqüilidade para poder assistir quando for mais conveniente. Geralmente o filme escolhido pela minha filha é para assistirmos em conjunto. Também lemos bastante e discutimos a leitura e as idéias que ela representa. Nossa filha tem o primoroso hábito de ler tudo o que cai em suas mãos. Conhece muito bem os contos de Don Quixote. Para me tomar um pouco mais do tempo que sobra, sou síndico do condomínio onde moro. No começo foi complicado e tive muito dificuldade com a antiga administradora, mas a melhor decisão que tomamos foi ter trocado de empresa e hoje temos uma ótima administradora que é muito eficiente e que torna tudo muito mais fácil. Sou padrinho de 7 casais, dos quais cinco são em conjunto com a minha esposa e temos mais dois afilhados de batismo, uma afilhadinha de 4 anos que é uma coisa fofa...além de um garotão lindo de grandes e brilhantes olhos azuis, que ainda vai fazer dois anos. Temos um grande prazer e uma grande responsabilidade para com eles e para com as famílias deles que nos confiaram essa missão indelegável.
Quando conheci minha esposa, ainda namorados, descemos para passar o começo de ano em Floripa, resolvemos ir descendo, descendo, sempre beirando o litoral...fomos parar em Montevidéu....conhecemos todo o litoral de São Paulo até Montevidéu no Uruguai e fizemos a Estrada do Inferno de Corsa. Lembro que o ônibus 4X4 levava 8 horas para fazer 180 km de areia, pelo trecho de Mostarda, Bojurú e Tavares até o Rio Grande... e nós fomos a atração principal das cidades por onde passamos...até almoço com o Prefeito de Bojurú ganhamos...voltamos por dentro do continente e passamos pela região nobre do Sul, como era lindo Gramado, as Serras Gaúchas, Santa Catarina e Paraná...
Não sei viver sem sonhar com uma aventura...está no meu sangue e é mais forte que eu... na minha infância, adolescência e já na fase de adulto jovem, tive a oportunidade de ter contato com vários outros tipos de esporte, o iatismo, ginástica olímpica, natação, jiu-jitsu, cavalos, motos, rapel, canyon, raftin, surf, vôlei, futebol, basquete, golf e etc... mas nada me prendia por muito tempo, parecia que o interessante seria usar tudo isso em um trajeto... em uma aventura... e quando conheci o montanhismo, percebi – na minha opinião – que nada se compara ao seu sabor, pois usa-se de tudo na composição do que é necessário para a sua prática, pois ele exige concentração, preparação, auto-conhecimento, estudo, técnicas diversas, criatividade, logística... e o melhor de tudo, a percepção de que tudo tem seu tempo certo para acontecer e que se ainda não aconteceu, é porque ainda não amadureceu... ainda não é permitido...percebe-se também a individualidade de cada pessoa, uns aclimatam mais cedo...outros precisam de mais tempo...e não existe nada que pode ser feito...tem que ter humildade para perceber que de um determinado passo para frente, a brincadeira vira tragédia e que agora já é a hora de voltar... graças Deus casei com uma mulher maravilhosa ( que vai ler isso ) e que permite que eu pratique montanhismo em alta montanha, pois ela sabe que eu sempre vou voltar, pois não tenho compromisso em atingir o ponto mais alto de uma montanha, mas sim vivenciá-la e trazer experiências e conhecimento para minha vida “normal”. Montanhismo e alpinismo referem-se a mesma atividade, mas corretamente falando, alpinismo seria uma definição de montanhismo nos Alpes, ou seja, a atividade de escalar nos Alpes. Tanto é dessa forma, que algumas pessoas usam o termo andinismo para definir alpinismo ou montanhismo nos Andes. Qualquer terminologia esta adequada na minha maneira de ver, embora tenha uma tendência a prefir o termo montanhismo, percebo que existe um forte apelo popular com a nomenclatura “alpinista”.
Em Dezembro daquele mesmo ano, segui com minha esposa e filha, para uma viagem de férias e de reconhecimento do parque e do entorno do Aconcágua, fomos via Buenos Aires e voltamos por Santiago, foram 20 dias seguindo até o litoral do Chile numa fantástica viagem da Costa Atlântica até a Costa do Pacífico, minha filha contava com 5 anos. Além de ter me divertido com minha família e passeado bastante com ela, levantei toda a logística necessária e diversas informações de o que fazer, como fazer, o que contratar, como contratar. Observei marcas e equipamentos diversos. Voltei para São Paulo e pesquisei durante o 1 ano que tinha, sobre tudo o que ia precisar entre roupas e equipamentos, também estudei num livro de medicina – outra vez um livro do meu irmão – (ele é Médico) os efeitos da altitude em pilotos de caça e montanhistas. Não arrumei nenhum parceiro para ir comigo, todos achavam que eu ia morrer... e que era louco e etc...incrivelmente minha esposa foi a única que falou: “Vai e volta...porque o seguro não cobre...”Fiquei com muito receio do que ela poderia fazer se eu não voltasse e resolvi seguir suas ordens à risca...
Entre a visita em 2004 e efetivamente a viagem ao Aconcágua, eu tive uma ano para estudar e pensar no que iria fazer. Me considerava e ainda penso assim, um cara totalmente inexperiente e com conhecimentos parcos e escassos sobre a matéria... Portanto, o mais lógico e responsável, seria contratar um guia, que faz tudo para você, você paga e cumpre as ordens sem se preocupar com mais nada em relação ao roteiro, logística, etc... Quanto mais eu lia e pesquisava sobre o assunto, mais confuso eu ficava... e foi o momento, onde resolvi usar meus instintos... Decidi que seria oportuno e razoável diminuir o tamanho da montanha...pegar experiência, verificar como meu corpo se comportava na altitude, portanto defini que deveria ter 3 objetivos menores do que os 6.959 metros do Aconcágua. Muita gente do meio, me aconselhava a tentar montanhas menores... mas eu não queria saber de outras montanhas, estava obcecado por conhecer o “ Teto das Américas” e para isso teria que fazer concessões, onde primeiro estabeleci que não chegaria no cume...tentaria primeiro o acampamento Confluenza (3.300 metros) partindo da Hosteria de Ponte Del Inca (2.750 metros), seria meu “Objetivo C”, o mais baixo e mais fácil, onde eu acamparia, dormiria, descansaria o dia seguinte inteiro – aclimatando – para seguir no outro dia e realizar um bate e volta ao meu “Objetivo B” Plaza Flancia (4.200 metros), para então voltar dormir novamente em Confluenza, descansar para no dia seguinte seguir ao meu principal intento, dormir no “Objetivo A” Plaza de Mulas (4.300 metros)... era esse o plano... e como não tinha parceiro, eu fui sozinho, procurei contratar um serviço de alimentação no local, já com uma barraca também no local. Assim pelo menos eu poderia pedir ajuda à alguém – caso necessário – bem como, não me preocupar em cozinhar, pois se realmente tivesse problemas e ficasse debilitado, poderia não ter ânimo para preparar comida e isso acabaria me enfraquecendo ainda mais.
Contava também com o fato de que no Parque do Aconcágua, é obrigatório comprar um ticket na cidade de Mendoza que dá direito ao resgate – inclusive de helicóptero – bem como passar em consulta médica diária (caso queira) com os serviços dos plantonistas na montanha.
Em 2005, no Aconcágua, fui sozinho, em 2008 no Mont‘ Blanc, estávamos em 4 alpinistas, sendo eu, e mais dois amigos meus da PUC + 2 guias franceses, sendo que o outro alpinista era um Irlandês muito simpático e prestativo.
Foram dois tipos de escaladas completamente diferentes, com o perfil completamente oposto e acredito ser importante frisar que cada qual teve o seu atrativo e fascínio.
Aconcágua 2005
Foi extremamente interessante, pois foi muito mais reflexiva e de auto-conhecimento, onde planejei sozinho e metodicamente cada detalhe do que seria minha aventura. Além de planejar sozinho, fiz toda a execução sozinho. E era uma sensação muito diferente a de andar sozinho na montanha por várias horas, sem encontrar ninguém, percebi que era ótimo companheiro de mim mesmo...passei a gostar mais de mim... Claro que conheci pessoas no caminho, com quem fiz alianças e com quem andei parte do trajeto em conjunto, mas eu era totalmente livre e independente para fazer o que desse vontade, não era dependente de ninguém e também ninguém dependia de mim. Passada a aventura, veio a contribuição da experiência para a aplicação do aprendizado no retorno à “vida normal”; e na minha avaliação própria, acredito ter me tornado mais sensível a percepção instintiva de que em algumas situações onde antes eu me desequilibrava na ansiedade de vê-las resolvidas rapidamente, ocorreu um amadurecimento emocional que me propicia a vantagem de observar a questão sob um prisma diferente, de que se possuo um objetivo real, talvez leve algum tempo para encontrar uma solução e que essa solução existe, mas que exatamente, ela necessita de um tempo para ser encontrada e isso pode depender não apenas do tempo, mas de planejamento, de estratégia... e que se eu tentar interagir de maneira inesperada, isso pode apenas retardar o sucesso da pretensão. Foram 10 dias de viagem sendo 2 gastos para entrar na montanha e dois para sair, sendo que fiquei 6 dias na montanha.
Basicamente, sai de São Paulo, cedinho em direção à Santiago-Chile, quando foi uma hora da tarde, local estava desembarcando em Santiago e me dirigindo de ônibus para a rodoviária internacional de Santiago, comprando passagens de ônibus das 15 horas para Mendoza, onde exatamente ás 19:30 já estava no meu quarto em Puente Del Inca, na Hosteria da Vila. Passei muito mal de noite, pois sai de 400 metros de Santiago, me alimentei mal e quase não ingeri água e dormi á 2.750 metros de altitude, tendo passado na fronteira por mais de 3.000 metros...é muita coisa para quem não está acostumado e/ou nem aclimatado. Procurava sempre não tomar remédios para não mascarar um possível edema pulmonar ou cerebral, portanto, realmente tive todos os sintomas do M.A.M. (Mau Agudo da Montanha), quer seja dores de cabeça, vômitos e diarréia. Foi uma noite do cão... e nem tinha entrado na montanha. No dia seguinte, tudo passava e não sentia mais nada... Fui andar no Parque do Aconcágua e simplesmente estava ótimo. Andei desde cedinho, até as 16 horas da tarde e fui dormir cedo por absoluta falta do que fazer. Cedinho fui comprar meu ticket de permissão para entrar no parque. Tinha que viajar até Mendoza, distante 180 km. de onde eu estava. Consegui facilmente uma carona de caminhão, comprei o ticket e voltei de VAN de noitinha. Ou seja, no dia seguinte de manhã ia adentrar a montanha. Ótimo dia para iniciar a aventura, coloquei o equipamento completo, pois estava começando uma “borrasca” de neve... Alpinistas mais experientes ficaram descansando esperando o tempo melhorar, eu na minha ansiedade quis começar a subir logo e segui mesmo com o tempo ruim. Foi uma decisão boba, mas que deu certo, pois o tempo melhorou e chequei ao meu destino em tempo de lanchar de tardezinha...No outro dia de manhã saí do acampamento Confluenza ás 8 horas da manhã em direção a Plaza Francia, onde 900 metros acima, eram atingidos em média de 5 horas. Fiz em 4 horas achando que tinha nascido para o esporte...estava prestes a levar uma lição de humildade...ocorre que durante o trajeto eu fiz amizade com um grupo de chilenos no meio do caminho e subi com eles. O líder da expedição era um alpinista famoso, em seu país e já tinha feito 28 vezes o cume do Aconcágua, sendo 3 vezes pelo lado Sul, mais técnico e mais perigoso. Na ânsia de extrair dele o maior número possível de informações de qualidade, fui acompanhando o passo arrojado que ele tinha e nos distanciamos dos demais. Quando chegamos comecei a me sentir enjoado, tinha cometido dois erros que naquela altitude podem ser fatais, tinha bebido pouca água e tinha subido rápido demais...desconcertado e preocupado comecei a descer rapidamente, o que agravou mais ainda o problema, pois desci em passo acelerado...ao invés de usar uma marcha lenta e constante. Notei que meu passo já não era firme, estava refletindo com dificuldade e arfava bastante. Não tardou para ter uma forte reação do meu sistema digestivo para a maça que acabara de tentar ingerir...Bem, o fato é que a previsão de retorno de 2 horas e meia, foi feita em 10 horas e eu cheguei no acampamento por volta das 22 horas da noite, completamente só e exausto, pois o grupo de chilenos quando desceu, simplesmente passou por mim, me desejou sorte e nem sequer avisou os guarda-parques (policiais responsáveis pelo resgate e salvamento na montanha) de que havia uma pessoa em dificuldades na trilha, descobri naquela altura que o rádio que levava não funcionava naquela freqüência, senti raiva de mim mesmo, mas ao mesmo tempo acreditei que não havia o que fazer, exceto continuar andando, tentava ingerir água, dava dois passos, regurgitava, repetia a mesma operação por horas á fio...foi um jogo de paciência e nessa hora, não havia nenhuma opção, tinha que continuar andando, pois a noite avançava rápido e o frio tomava conta de tudo, não era uma opção ficar parado....não dava para chamar um táxi, pegar um ônibus, pedir auxílio, essas coisas da vida moderna...portanto só contava comigo mesmo... O amor que temos pelos pais, pela esposa, por maior que seja, quando nos sentimos completamente esgotados, não é grande o suficiente para te fazer andar... mas a cada passo que conseguia dar, lembrava do rostinho lindo da minha filha e sabia que isso me fazia ficar mais próximo dela, passo por passo, metro a metro... eu literalmente me arrastei por 10 horas...Quando eu cheguei no acampamento o pessoal do serviço que eu havia contratado para me servir as refeições, já tinham notado que eu não havia voltado e estavam olhando para o horizonte em busca de algum sinal. Quando me viram, duas pessoas saíram ao meu encontro para me ajudar e notaram que eu estava em grandes dificuldades. Perguntaram se eu queria que eles carregassem minha mochila... Algumas horas atrás teria sido de grande ajuda, mas agora a alguns minutos do acampamento, a pergunta me parecia ridícula. Durante meus devaneios por falta de oxigênio, estabeleci uma relação com a mochila, pois tendo pensado em me livrar dela, por causa do peso, refleti e cheguei a conclusão de que não era uma boa idéia, pois psicologicamente eu ainda tinha condições de cuidar de alguma coisa, de alguém, nem que fosse uma mochila...estabeleci uma relação igual ao que o personagem de Tom Hanks , no filme “O Náufrago” estabelece com a bola...e portanto, conversava abertamente com minha mochila...achei que tinha enlouquecido, mas depois voltei ao normal...Fui direto para a barraca que servia de consultório médico e fui examinado por uma médica que constatou que eu estava com baixa oximetria no sangue e portanto com M.A.M., ela me deu remédios para enjôo, diarréia e dor de cabeça. A cada 10 minutos alguém ia checar como eu estava na minha barraca. Quando foi meia-noite miraculosamente estava ótimo. Cansado pelo desgaste, mas me sentindo com fome e fiquei feliz que a estratégia deu certo, pois não tinha disposição para cozinhar, porém me fizeram uma sopa quente e forte para que eu pudesse recuperar minhas forças. No seguinte, eu deveria subir para Plaza de Mulas, mas mudei os planos e resolvi descansar o dia inteiro para me recuperar, chequei minhas fotos e vi que eu tinha ficado muito inchado nas fotos do dia anterior, por causa da falta de oxigênio. Todos diziam que deveríamos beber de 3 a 5 litros de água na montanha, defini que no meu caso deveria ser 5. Defini que dali para frente isso passaria a ser crucial para meu bem estar. Acontece que a água de degelo, rica em magnésio era muito ruim de beber com seu gosto metálico e aprendi com as pessoas que o negócio era misturar o suco em pó com dois litros de água para poder fazer uma hidratação forçada e depois ir mudando o sabor para não enjoar...Virei uma atração especial no acampamento e todos queriam ouvir o meu relato de como eu tinha passado mal... Fiz amizade com dois espanhóis que julguei serem dois manés por não terem subido dois dias atrás por causa da “borrasca”... como fui tolo... os caras eram profissionais e estavam fazendo os 7 cumes, com patrocínio e tudo mais, onde só faltava o Aconcágua e o Everest...já tinham feito o McKinley no Alaska e o Vison na Antártida...quem era o mané? Eles estavam aclimatando e queriam subir no dia seguinte para Plaza de Mulas, me convidaram para subirmos juntos... gostei da idéia, já que a previsão para este trajeto era de 9 horas de caminhada e 1.000 metros de ascensão vertical e seria um longo tempo de caminhada sozinho... porém comentei que se no dia seguinte minha oximetria não melhorasse eu iria embora, encerrando minha aventura, me sentia um pouco constrangido e assustado... porém, se eu estivesse em 80%, limite mínimo para continuar a subida, então eu subiria com eles... No dia seguinte, estava muito bem e meu corpo escolheu subir, um dos espanhóis vomitou o caminho inteiro e levamos 12 horas para concluir o trajeto de 9 horas... bem, agora que eu tinha uma noção clara do que acontecia quando uma pessoa sobe rápido e sem hidratação suficiente, eu realmente achava mais interessante subir devagar e tomar muito líquido para não passar mal. Como os espanhóis eram patrocinados, paramos muito para filmar e fotografar. No final da trilha, quase chegando em P.M. tem uma subida que é de matar...nossa água tinha acabado, nossa luz tinha acabado (já era de noite) e nosso gás tinha acabado, pois estávamos exaustos e o lugar não chegava nunca... Lembro como se fosse ontem, da emoção de chegarmos na barraca do check-in do guarda-parque em P.Mulas... ele aguardava no rádio e estava monitorando nossa subida, pois tínhamos feito check-out e portanto, ele sabia nossos nomes e que dois espanhóis e um brasileiro estavam subindo e que emoção não foi ao sabermos que enquanto estávamos preocupados em chegar havia algum monitorando nossos passos...foi uma sensação reconfortante...ouvir alguém chamar os nossos nomes no escuro, sem nos conhecer, uma voz desconhecida na escuridão oferecendo ajuda, foi uma emoção indescritível... rapidamente nos ofereceu muito líquido e todos tomavam no mesmo copo desesperadamente pois estávamos sem nada para beber a mais de 3 horas.... chegamos cansados, mais muito bem de saúde...
Fomos levados para a nossa tenda de refeição que nos aguardava impacientemente, todos muito preocupados com a nossa demora. Eu estava calado, coisa rara na minha personalidade e comecei a degustar uma sopa muito saborosa. Para aqueles que tem curiosidade do que comemos na montanha, o cardápio era extremamente completo, tínhamos, lasanha, carne de boi, de frango, milho, ervilhas, legumes, feijão esquisito...era tudo muito saboroso, mas não comi muito com medo de passar mal...e rapidamente só pensava em dormir, foi quando um dos espanhóis começou uma discussão com o chefe do acampamento contratado, pois a barraca dormitório que havíamos contratado (cada um tinha a sua) não estava montada, o vento fora da barraca refeitório açoitava e balançava a estrutura e os caras continuavam discutindo... quem estiver ouvindo esse relato, pode achar estranho um montanhista não querer armar uma barraca iglu, algo extremamente fácil...mas o problema é que estávamos exaustos, de barriga cheia, a 4.300 metros, tínhamos acabado de subir 1.000 metros verticais em 12 horas de caminhada...eu interrompi a discussão e perguntei em espanhol: “Posso dormir aqui?” Recebi instantaneamente uma resposta positiva e enquanto eles continuavam a briga eu já estava dentro do meu saco de dormir....sobre um chão de pedras e terra me sentindo o cara mais feliz do mundo... Um dos espanhóis, imitou meu gesto com melhorias, sacou a barraca para fora do saco e fez uma caminha para colocar embaixo do saco de dormir...rapidamente imitei sua idéia...mas o outro não se conformava e saiu para montar a barraca naquelas condições... Como ele estava se demorando, fui verificar e ele estava tendo dificuldades com o vento...que insistia em não permitir que ele armasse a barraca... aliás, as barracas não ficavam armadas, justamente porque elas acabavam voando para 4.300 metros abaixo...isso é realmente muito comum...por essa razão é que encontramos barracas que são verdadeiros “bunkers” com proteção de pedras e telas para fixá-las ao chão. Não sei explicar o que me fez ir em seu auxilio, foi um misto de sentimentos, mas talvez tenha sido o fato de que estava num ambiente completamente diferente e que precisava ser útil, pois a qualquer momento, eu talvez fosse o próximo a necessitar de auxilio, portanto, confesso que não foi apenas por sentimentos nobres, mas o egoísmo da sobrevivência me forçava a fazer algo que não faria por mim mesmo naquela situação. Acho que levamos mais de 20 minutos para conseguir armar a barraca naquelas condições, acredito que sozinho ele teria tido muita dificuldade, pois ventava bastante... ele perguntou se eu queria que ajuda para montar a minha...e eu respondi: “ - Tá maluco? Amanhã fazemos isso... “ Ele me confidenciou que era melhor eu montar, pois o seu companheiro tinha muito chulé e que roncava bastante... eu sorri e falei: - Quem de nós não tem? Quem de nós não ronca...? Ele sorriu ardilosamente... e eu me retirei... Quando entrei na barraca refeitório transformada em dormitório, senti um golpe forte no meu rosto... foi um verdadeiro chute no nariz, não associei a última conversa com o fato novo e fui olhar o cesto de lixo pensando em por fora da barraca, acreditando que fosse alguma coisa de peixe estragado com ovo podre... enquanto isso o outro espanhol sorria envergonhadamente explicando que ele tinha esse problema com os pés... Pensei o jeito é adormecer primeiro antes que ele comece a roncar...foi o que fiz...no dia seguinte, durante o café da manhã, ele veio me reclamar que eu tinha roncado de maneira impressionante, eu sorri e respondi que isso só acontecia quando estava excessivamente cansado...mas que o chulé dele devia ter facilitado a profundidade de sono alcançada propiciando um pouco mais de barulho e demos muita risada...Passei o dia descansando e resolvi ir até uma hosteria que descobri existir a 70 metros verticais e 15 minutos dali, pois tinha telefone e poderia avisar a família que eu estava bem e com planos de retornar da montanha no dia seguinte, pois iria tentar fazer uma descida de todo o percurso que soma 38 km no mesmo dia. Cheguei no Hostel em 20 minutos e fiquei esgotado, quando fui falar no telefone, era muito difícil conseguir ligar e a chamada caia, não consegui ligar para minha esposa, mas tive sucesso com minha mãe que ficou assustada pelo fato de eu estar muito ofegante, depois fiquei sabendo que ela confessou ao meu pai uma preocupação , acreditando que eu estava com problemas pela dificuldade em falar. Some ao fato de que geralmente não ligo para avisar que as coisas estão bem...ligo se precisar de algo, mas eles já estavam a 5 dias sem notícias minhas, por isso achei por bem informá-los de como as coisas estavam... Para retornar ao acampamento, levei 45 minutos, estava sentindo o poder da altitude...era muito ruim a adaptação...para se ter uma idéia caso eu fosse continuar subindo, seriam necessários 5 dias de aclimatação em Plaza de Mulas. Estava feliz por ter conseguido meus três objetivos, feito novas amizades mas acima de tudo ter vivenciado a Montanha, convivido com ela da maneira mais harmônica possível...e foi impressionante como fiz amizade rápido com italianos, americanos, canadenses, franceses, chilenos e argentinos, realmente estávamos num mundo onde a pátria não importava. No café da manhã meus amigos estavam chateados com a minha partida e eu fazia piadas que eram simultaneamente traduzidas...até quem não entendia nada, ria do que estávamos rindo... e assim, pontualmente ás 11:30 horas deixei Plaza de Mulas para trás, obstinado em tomar banho (faziam 6 dias que meu corpo não via água) na Hosteria de Puente Del Inca e jantar no seu belo salão. Sai com o passo firme, rápido e cadenciado e permaneci durante um bom tempo nesse ritmo forte. Durante o trajeto encontrei um casal de canadenses e o rapaz carregava uma mochila de 40 kg. Realmente fiquei impressionado. O ritmo deles era lento e instintivamente comecei a acompanha-los. Para mim era adequado ter companhia, pois talvez pudesse ser útil se eu tivesse algum problema caminhando sozinho e para eles era providencial pois não falavam espanhol. A mochila do rapaz estava realmente sendo um transtorno e eu sugeri que ele me passasse uma parte do peso que ele tinha para andarmos no mesmo ritmo. Depois de algum tempo, ele cedeu e me passou 10 kg. que junto com meus 15 kgs. somou 25...ficamos os três com uma média parecida e o passo ficou normal por umas 4 horas. O problema foi que eu prendi a mochila menor dele, na minha parte superior da minha mochila e isso sacolejava demais... quase no finalzinho da descida numa passagem mais estreita eu dei um salto para passar um espaço maior e ajudado pelo peso extra fazendo pêndulo na minha carga, virei o pé. Acontece que a bota é feita para não deixar o tornozelo virar e então força o joelho. Terminei a viagem mancando, mas terminamos o trajeto de 38 km em 8 horas e meia. Para subir é difícil, mas para descer todos os Santos ajudam. Tomei banho, cuidei do joelho, jantei no hostel com meus novos inseparáveis amigos e fui dormir com sensação de dever cumprido. Depois foi só voltar para casa e abraçar minhas meninas no aeroporto.
Mont’Blanc
Passada minha aventura até 4370 metros no Aconcágua (6.959 metros no total), me interessei também pelo Mont’Blanc. Existe muita informação ao seu respeito e todas são muito interessantes. Pensei que pudesse ser uma boa preparação para tentar o cume do Aconcágua e então resolvemos fazer as férias da família em dezembro de 2006 com uma providencial viagem de prospecção acoplada. Partimos para Portugal, eu minha mulher e minha filha em direção a cidade do Porto, pois Claudia naquela época pensava em fazer o Doutorado na Universidade do Minho. Depois de resolvidas suas questões acadêmicas, pegamos um ônibus em direção a Santiago de Compostela, onde alugamos um carro e seguimos por toda a costa espanhola até a cidade de Biarritz na França. Andávamos 400, 500 km. por dia, parávamos, curtíamos as cidades e depois continuávamos...conhecemos todo o Sul da França, parte dos Pirineus seguindo em direção a Lyon até alcançarmos Chamonix, base para as conquistas do Mont’Blanc quando iniciadas pelo lado Francês. Era inverno e pegamos temperaturas de menos 10 graus, foi divertidíssimo ver Gabi brincando com neve...depois passamos pelo Principado de Andorra e seguimos em direção a Madri onde passamos o Natal com Pedro, um velho amigo de aventura da época de Universidade, que mora na capital espanhola. Não preciso dizer que ele foi contaminado pelo desejo de ir na empreitada e se ele também ia, um outro velho companheiro não poderia deixar de estar nessa também... e foi assim que Pedro e Bernard começaram a ficar muito interessados nos planos de escalar o ponto culminante da Europa Ocidental. Nós já havíamos viajado bastante juntos ...e sempre tivemos uma amizade muito sólida. Já tínhamos explorado a descida da Serra do Mar via Paranapiacaba, subido e descido diversos morros na região de Joanópolis, feito a região da Pedra Grande em Atibaia, além da Pedra do Lopo em Extrema (MG). Uma certa vez, formamos um grupo para um evento de corrida de aventuras, logo que a atividade apareceu...nos divertíamos à beça... eram os companheiros ideais para a nova empreitada que estava por vir. Eu ouvira falar que o Mont’Blanc era uma montanha fácil e começamos a pesquisar a idéia tendo em vista a realização da execução no Verão Europeu de 2008. Nós formávamos um grupo forte e unido, com amizade suficiente para confiar um no outro ao extremo... e realmente testamos isso...embora não fosse nossa intenção inicial...
O Mont’Blanc é o ponto culminante da Europa ocidental e fica na fronteira da Itália, França e Suíça, sendo que tem 4.808 metros de altitude. Ele tem cinco rotas para chegar ao cume e a literatura, de um modo geral o considera uma montanha fácil e acessível. Uma ova! Não acredite nisso...pois essa consideração é em relação a outras montanhas.
Meu amigo Pedro, justamente por morar na Espanha, onde o esporte é mais difundido começou a levantar uma serie de informações úteis e importantes para a nova aventura. Foi decididamente quem mais trabalhou para que essa expedição acontecesse e fez todos os contatos com os guias, selecionando alguns. Conversamos, discutimos, brigamos, decidimos, voltamos atrás, discutimos de novo...foi assim durante um ano de preparação... Bernard era o mais tranqüilo em relação ao que iria acontecer... para ele os estudos eram de topografia, ficava decorando os mapas... ele é sempre o nosso navegador e possui memória fotográfica dos lugares por onde passa. Me considero um cara bom de caminhos, mas ele é impressionante. Quando se resolve agir em grupo, acredito que a maior dificuldade é a interação. Eu uso muito o meu instinto e é claro que fica complicado expor isso aos demais. Tenho sonhos noturnos e acredito neles, mas não posso explicar isso aos meus companheiros...e como aplicar isso ao grupo? Confiar nos nossos instintos interiores quando você está sozinho, não tem problema, mas como interagir com seus companheiros e explicar que suas intenções estão pautadas em instinto...? Nos sentimentos...Fica necessário interagir buscando justificativas palpáveis. Algo no meu interior, uma sensação estranha me dizia para não irmos em Agosto e fui taxativo que não iria escalar naquele mês, insisti que deveríamos ir em Julho, pois a montanha ainda não estaria sobre o pico do verão...ainda mais com aquecimento global... Cheguei a querer cancelar tudo um mês antes e o meu argumento foi válido, pois acabamos partindo para um curso de 5 dias de escalada no gelo, já na montanha, para também aclimatar, com início em 14 de Julho de 2008, sendo que nos dias 19 e 20 tentaríamos o cume, tudo sobre supervisão e ordens dos guias. Quando voltamos, ficamos estarrecidos ao saber que 34 dias depois de termos estado na montanha, uma avalanche matou 8 alpinistas exatamente no mesmo lugar por onde pisamos...simplesmente foi uma placa de gelo de 200 metros por 50 metros que despregou do alto do Tacul do Mont’Blanc, matando as 8 pessoas que estavam na via naquele momento. Gosto sempre de ouvir a voz interior...
Destaquei 3 dias de viagem para chegar na montanha e 3 dias para voltar até o aeroporto. Fui via Milão na Itália, pois tenho cidadania italiana, o que evita uma série de perguntas. Para chegar na cidade base e ponto de encontro do grupo - Chamonix – na França em plenos Alpes franceses, segui de trem para Chambery Challes, onde pernoitei. Na manhã seguinte peguei o trem com baldeação para Chamonix e dormi no ponto de encontro acordado com meus companheiros um dia antes do combinado. A cidade estava com chuva de verão e simplesmente maravilhosa, pois acontecia a Copa do Mundo de Escalada, onde alpinistas disputavam provas em competições interessantíssimas. Quando cheguei na estalagem que havíamos reservado, bem ao estilo francês...não havia ninguém na recepção e estava tudo trancado...arrumei um quarto numa outra estalagem por 11 Euros, verdadeira pechincha, para dividir com mais 30 pessoas. No dia seguinte cedo me mudei para a estalagem combinada e encontrei meus amigos no fim da tarde. Foi realmente emocionante jantar com eles e conversarmos em português fluente, num encontro em pleno coração alpino. Eles tinham pego um vôo de Madrid até Genebra, alugaram um carrinho ridículo e seguiram até o destino previsto. Ríamos de tudo e éramos um grupo de brasileiros com forte apelo europeu, pois a mãe do Bernard tinha feito tocas com símbolos dos nossos países de origem, portanto eu tinha a minha toca com a bandeira do Brasil e outra da Itália, Bernard com bandeiras do Brasil e Áustria e Pedro com bandeiras da Espanha e Brasil. Os europeus de um modo geral eram muito simpáticos a nossa presença, fomos dormir cedo, pois o dia seguinte prometia ser atípico. No nosso quarto tinha um Finlandês que estava viajando de moto...e ele parecia um Urso Branco saído de um filme de gangs de motoqueiros, careca e branco quase albino, uma figura...e roncava igualmente a um urso... Durante a noite acordei com o Pedro xingando e arrumei um tapa ouvido para ele poder dormir. No dia seguinte conhecemos o nosso guia e após uma breve explicação sobre alguns equipamentos que deveríamos usar e outros que deveríamos guardar, seguimos de trem para o Mer de Glacê, onde recebemos as primeiras instruções de uso dos crampons (ferros com travas para prender nas botas) e dos piolet’s (picareta de gelo). Descobri que a bota que eu usava não tinha sola rígida, era semi-rígida e isto quase me custou a viagem. O crampon feriu seriamente a parte de trás do meu calcanhar e isso tornou cada passo que eu tinha que dar uma ação extremamente dolorida. O guia também testou nossa capacidade de suportar a altura, fazendo com que passássemos por escadinhas pregadas na rocha que eram bem impressionantes. O segredo era se concentrar em cada movimento de pés e mãos...um de cada vez...De todos nós, Bernard era o que melhor se adaptava ao uso dos crampons e ao piolet e eu fiquei muito para trás no aprendizado, pois estava sentindo muita dor. Na hora de voltarmos pela rocha, tiramos o crampon e então tudo voltava ao normal, sem a dor era possível andar normalmente. No fim do dia, voltamos para a cidade, entrei numa loja e comprei uma bota nova que seria a salvação da minha viagem. Também comprei um par de crampons novos (estava usando uma alugado, mais cego do que um morcego velho) que afiadíssimos melhorariam minha performance. No dia seguinte, ficou programado de sairmos cedo para subir de 1.000 e poucos metros para 2.750 metros, onde dormiríamos em um refúgio chamado Albert I. Ele foi construído com recursos do Rei da Bélgica que também era alpinista e foi batizado com seu nome. Ele tem vaga para 111 alpinistas, dormimos num quarto em 24 pessoas e apenas 3 latrinas... ressalto que eram 3 latrinas para dividir entre os 111 hóspedes. Tirando esse detalhe a comida era maravilhosa e lembro da sopa que era servida com pão e queijo, que deveríamos picar antes de por a sopa no prato. Simplesmente maravilhosa. Na subida para o refúgio, estava decidido a não ter problemas, mas comecei a sentir a ferida do calcanhar e realmente percebi que isso seria um problema. Eu estava subindo com a bota velha e a nova era muito quente para aquela altitude e temperatura, estávamos de bermuda e camiseta em pleno verão europeu. O guia me emprestou uma papete e o problema foi resolvido. Paramos para almoçar, pão, queijo e “salsichon” (lingüiça) que eram deliciosos. Logo após o almoço, seguimos para cima e eu me sentia feliz por não estar com mais nenhum desconforto, até que senti a maior dor de barriga que alguém poderia ter tido...Corri para trás das pedras cinco vezes, mas o local era cheio de gente...era horrível tentar fazer algo escondidinho das pessoas...mas com a trilha a menos de 10 metros...
Bem... o resultado foi que eu tinha cólicas e precisei fazer várias paradas, levei duas horas a mais que meus preocupados companheiros que seguindo as instruções do guia subiram sozinhos na frente, assim que cheguei me aguardavam com uma latinha de refrigerante que tinham comprado no local...foi uma sensação revigorante... Jantei bem com a nutritiva sopa e peguei leve na lingüiça com arroz servida no jantar. No dia seguinte levantamos as 4 horas da manhã e a preocupação do guia com o meu pé era algo impressionante. Ele recortava adesivos de “segunda pele” para grudar no meu calcanhar e dizia em tom sério e profético que eu não poderia estourar as bolhas, senão iria piorar...Os franceses levam realmente tudo muito a sério... Tomamos café e partimos em direção a realização de uma invasão pelos Alpes Franceses, aos Alpes do território Suíço. Quando entramos na Suíça batemos foto e confraternizamos, eu já não sentia dor no pé e não passava nenhum desconforto, a viagem estava fantástica. Seguimos então por uma via que leva ao Aguile de Tour, uma formação rochosa em forma de agulha que nos obrigou a fazer uma subida em rocha, com neve, sem os crampons (coisa que eu adorava fazer), onde íamos subindo progressivamente, primeiro o guia, depois eu, seguido pelo Pedro e fechando com o Bernard. Estávamos um preso ao outro e portanto, o trabalho em equipe era fundamental a idéia é estarmos todos atados pois se um cair, o resto segura, mas a impressão que passa é de que se um cair...todo mundo despenca! E foi então que eu olhei para baixo e vi que não tinha nada lá em baixo, apenas um vazio quase infinito que levava até a França, foi então que algo me passou pela cabeça...”se eu cair...morro na Suíça, mas meu corpo vai ser resgatado na França...o tempo estava ruim e cheio de nuvens em volta, entre uma e outra que passava, deu para ver aqueles enormes vazios e foi quando o Pedro exclamou: “ – Pessoal... não estou vendo objetivo nenhum nisso...! Sua voz era serena, pausada e grave...e foi então que notamos que seus movimentos eram agitados. Eu e o Bernard já tínhamos o costume de ficar pendurados em cordas e penhascos, mas para o Pedro era uma novidade... e o problema é que a visão era realmente impressionante. Lentamente, fomos conversando e dizendo que estávamos todos perfeitamente seguros e presos e como eu estava acima dele não iria me mexer até que ele estivesse firme e o Bernard por sua vez, estaria em baixo para qualquer eventualidade. E assim, ganhando confiança pouco a pouco, conseguimos atingir um cume de 3.600 metros com pouca dificuldade técnica, porém bastante impressionante, pois era um verdadeiro amontoado de rochas soltas e íngremes. Descemos, vestimos o crampon para andar na neve e foi então que senti cólicas novamente. O guia mandou eu cavar um buraco no chão com o pé e ser rápido pois tínhamos que chegar no Refúgio Do Trident na Suíça, onde passaríamos a noite. Fiz o serviço sem tirar o Arnet (cadeirinha) e comecei a perceber que a cultura era essa. Montanha não é lugar para frescura. Me limpei com neve (melhor papel higiênico que existe) e continuamos andando em direção ao refúgio. Algumas horas depois paramos sobre uma formação de rocha, para tirar novamente os crampons para seguirmos alguns metros acima em direção ao refúgio. Fiquei por último conversando com o guia, Bernard saiu na frente e depois de um tempo saiu o Pedro, um pouco depois partimos o guia e eu logo atrás... O guia era realmente muito habilidoso para saltar nas rochas e possuía pernas longas, eu achei interessante segui-lo agora que estava no meu terreno predileto, rapidamente ultrapassamos Pedro e Bernard e seguimos correndo sobre as rochas em direção ao refúgio. Chegamos, ele entrou e eu fiquei olhando o horizonte tentando ver se avistava meus companheiros, notei que o tempo piorava e ameaçava chuva, o que queria dizer que provavelmente iria nevar...as condições do tempo eram preocupantes... Mais alguns minutos de espera e avistei o Pedro caminhando em nossa direção. Achei aquilo muito estranho, não era normal num caminho de rochas o Bernard ser ultrapassado pelo Pedro. Pedro era mais forte, mais preparado fisicamente, porém menos habilidoso em rochas, portanto algo não estava bem com Bernard. Comecei a me equipar novamente para ir ao seu encontro, quando avistei sua figura lenta e solitária se aproximando com uma certa dificuldade. Quando chegou no alpendre do Refúgio perguntei se estava tudo bem, sua resposta foi estranha: “- Estou com dor no peito...”
Rapidamente eu tirei a mochila dele das costas e a atirei para o lado, depois coloquei ele deitado, tirei o capacete, abri todas as vestes até encontrar o peito, folgando o pescoço e soltando o Arnet que apertava bastante na região da cintura... Dei um pouco de água, quando Pedro veio de dentro do refúgio e o viu deitado, levou um baita susto e usou o método espanhol, gritando: - Bernard??? Ta tudo bem???? E desferiu simultaneamente 3 tapas na cara do pobre infeliz...Acho que meu método foi mais agradável, mas o do Pedro foi mais eficiente pois ele levantou na mesma hora xingando e esbravejando que Espanhol é tudo louco mesmo...graças a Deus não foi nada sério e estávamos todos rindo novamente. Começou a chover e a nevar e ficamos entocados no refúgio Suíço, dormindo a 3.200 metros de altitude. A janta estava ótima, as instalações eram bem melhores que as francesas, tudo custava bem mais caro, mas ficávamos em apenas 7 nos quartos e tinha até instruções para usar os magníficos banheiros suíços... Logo após a janta, fiquei enjoado e não me sentindo bem por causa da altitude, fui dormir.
Logo de manhã, não me sentia nada bem, estava lento, vagaroso, cada passo era um suplicio, um esforço descomunal e fomos treinar como parar na neve, caso estivéssemos em queda. Para isso subíamos num tobogã natural e fingíamos cair, para usando uma certa técnica conseguir estancar a queda. Muito divertido e muito útil. Pena estar sofrendo com a altitude.
Foi então que começamos a rumar novamente em direção a França. Nossa excursão na Suíça chegava ao fim. Descendo em direção ao refúgio Albert I eu sentia meu corpo se recarregando de energia e comecei a perceber que não estava mais sofrendo com a altitude, foi então que eu e o guia descemos correndo sobre as pedras em direção a um teleférico que nos levaria para baixo e alguns minutos depois já estaríamos em Chamonix. Nesse ponto senti a energia pulsando novamente e descemos num ritmo forte, logo atrás do guia seguido pelo Pedro. Bernard ficou caminhando lentamente e veio em um ritmo bem mais lento. Esperamos por volta de meia-hora até a sua chegada, afim de embarcarmos juntos para a descida de teleférico.
Fomos para Chamonix e aguardamos a decisão dos guias sobre qual seria a rota que tomaríamos. Eu torcia pela rota mais simples e com rochas que é justamente a mais indicada para os iniciantes e inexperientes. Porém os guias escolheram a Rota dos Três Montes, onde para chegar até o Mont’ Blanc, seria necessário escalar dois Montes antes dele, o Tacul do Mont’Blanc e o Mont Maldit que justifica o nome...
Começamos o dia cedo e logo pegamos um teleférico que nos levava até o Aguille d’Medi onde desembarcávamos já numa altitude de 3.800 metros. Era uma rota altamente técnica, coisa que eu não pensava em fazer nem em sonhos... olhei pelo vidro do carro do teleférico e vi uns malucos numa pirambeba... comentei com o Bernard e ele pensou...acho que é por lá que vamos descer...mas foi bom ele ter me confessado seu pensamento apenas quando já estávamos livres dessa impressionante ladeira.
Fomos apartados em dois grupos de três alpinistas, um era formado pelo guia chefe, eu e o Irlandês e o outro pelo nosso guia antigo, Pedro e Bernard.
Ficamos prontos primeiros, atravessamos uma caverna esculpida na rocha e coberta de gelo, saímos num terracinho com uma cerquinha e quando percebi o guia já tinha aberto a cerquinha e estávamos descendo a pirambeba que tinha visto os malucos descendo, ou seja, agora nós é que éramos os malucos. Eu evitei olhar para baixo e para os lados, mas foi a coisa mais impressionante que já fiz. Como eu estava no meio tinha que tentar deixar a corda mais esticada possível, operação complicadíssima, pois o Irlandês ia na frente xingando no idioma dele, e formava uma barriguinha na corda, eu atado entre os dois, era empurrado pelo guia para andar mais rápido, mas se andasse mais rápido corria o risco de tropeçar na barriga da corda...e a queda...bem a queda tinha 300 metros de um lado da arista por onde caminhávamos e 2.800 metros de queda para o outro lado, ou seja, se ocorresse uma queda para o lado esquerdo, literalmente em pouco tempo estaríamos de volta à Chamonix. Felizmente nós não caímos e atravessamos um vale com altitude de 3.500 metros até chegarmos no Tacul d’ Mont’Blanc onde o atacamos de frente e o escalamos em pouco mais de uma hora. Era impressionante a quantidade de alpinistas voltando e nós continuávamos indo em frente. Foi então, por volta dos 4.000 metros que as coisas começaram a sair do meu controle e eu comecei a me sentir mal, explicava para o guia e ele me dizia que eu estava fora de forma, tentei avisar que precisava trocar a luva, pois meu dedo estava congelando e ele dizia que era impressão...insisti até que ele parou e eu pude descongelar o dedo, trocando de luvas... Eu não tinha me dado bem com ele, pois era cabeça dura, arrogante e não se importava com nossas impressões. Tentei avisar que a altitude estava me afetando e não conseguia mais respirar. Andamos 4 horas nessas condições e o pior é que o tempo estava piorando e a maioria dos alpinistas já estavam voltando. Passamos por um vale que liga o Tacul ao Maldit e nesse momento pensei apenas em continuar andando, meu cérebro já havia entrado no que eu chamo de “Módulo II” , onde devido a falta de oxigênio eu me apego ao necessário para a manutenção da minha sobrevivência e não penso em outra coisa a não ser continuar andando e se caso eu caísse teria que dar um jeito de “grudar no gelo”... mas naquele momento não raciocinava mais claramente, estava pego pelo fantasma da altitude. Quando entramos no Maldit eu já nem ligava mais, o guia dizia para eu andar mais rápido e eu mandava ele para o inferno primeiro em pensamento e depois, já em voz alta. Faltando 200 metros verticais, ou seja a 4.260 metros encontramos o outro guia, Bernard e Pedro enfiados numa gruta no gelo...estavam decididos a voltar. O tempo havia piorado muito e a visibilidade estava gradativamente se tornando cada vez mais insana. O vento já arriscava passar os 60 km por hora e a sensação térmica era por volta de menos 20 graus. Ok...hora de desistir...certo? Errado...já tínhamos passado e muito o momento para desistir, pois para voltar até um refúgio que conseguimos lugar para ficar, iríamos levar mais 5 horas, andando naquelas condições, perdidos, pelo colo do Maldit e do Tacul.
Quando entrei para descansar na gruta que eles estavam, o Bernard falou comigo e eu respondi coisas absurdas e sem nexo, achava que o buraco era um refúgio e que iríamos passar a noite ali. Meus amigos – Pedro e Bernard – perceberam que eu já estava em estado crítico por falta de oxigênio, decidiram que iriam descer e que me levariam junto... o mala do meu guia, argumentou que meu problema era falta de preparo e que se eu estivesse “realmente” com problemas de altitude não teria chegado até aquele ponto em apenas 4 horas. Bernard olhou para ele e foi taxativo, demonstrando não estar aberto a negociações: -Ele está mal fisicamente? Ele está mais preparado do que eu... eu vou descer e meu amigo vai comigo, se você quiser subir com o Irlandês, devolve meu amigo...e foi o que graças a Deus, ao Bernard e ao Pedro aconteceu. Começamos aquela descida infernal e o guia não achava o caminho, eu não sabia mais em que país estávamos e de que planeta eu pertencia ou pertencera...lembro que pensava apenas que tinha que continuar andando e que se caísse deveria grudar no gelo segundo os treinamentos : “like a cat”. Foi então que Bernard mais uma vez, com uma atitude digna de herói e com seu censo de direção encontrou o caminho para descermos, algo que naquelas condições fora absolutamente fantástico. Na subida do colo do Maldit para o Tacul, fizeram uma pausa e perceberam que minha situação era pior do que pensavam, eu não comia, não bebia, enjoava e tinha dificuldade para ficar em pé e andar. Pedro andou boa parte desse caminho me rebocando e forte do jeito que era, ficou uma rotina com os puxões eu ser projetado com o nariz no gelo... Serei sempre grato aos meus amigos que foram presentes quando eu não mais estava...eu tinha perdido o que considero mais importante, que é a capacidade de pensar e raciocinar mantendo-me alerta. Seria capaz de continuar andando eternamente, sem saber o rumo certo.
Conforme a altitude começou a diminuir eu comecei a recuperar e ter variações de consciência, foi então que quase no final do Tacul do Mont’Blanc o guia que estava atrás de mim, tropeçou e caiu em cima de mim, me derrubando, eu cai em cima do Pedro que com o efeito dominó também caiu derrubando o Bernard e rolamos todos alguns metros montanha abaixo. Para mim que estava em Módulo II, foi muito tranqüilo fazer o que tinha que fazer, pois eu tinha que continuar andando e se caísse deveria grudar no gelo. Como o guia tinha retirado minha mochila, ficou fácil fazer a curva numa cambalhota para poder girar o corpo de frente para a montanha e de costas para o vale (invertendo a posição de descida, numa manobra que treinamos) e usando crampons e piolet, cravá-los no gelo. Não sei onde ia terminar o nosso passeio, no vale, numa greta, ou numa curva suave ao fim da descida de mais alguns metros, mas fiquei feliz em conseguir estabilizar o grupo, e perceber que as vezes o mais debilitado do grupo, poderá ser útil e fazer a diferença se estiver com o objetivo em foco. Lembro que para chegar no refúgio do Cosmics, tivemos que subir mais 100 metros que fizemos já cansados, exaustos, mas já sem sofrer tanto a altitude que ali era de 3.500 para 3.600 metros. Quando cheguei, Bernard percebeu que fiquei parado, sem forças para tirar o equipamento e me auxiliou, agora era a vez dele cuidar de mim, pedi apenas que não deixasse o Pedro usar os métodos dele...descansamos e ficamos falando mal dos guias... Quando o Irlandês chegou, várias horas depois que nós já havíamos chegado, ele nos contou que ficara impressionado com o fato dos guias estarem completamente perdidos... e Pedro imitava ele com seu sotaque diferente carregado para o Londrino (já que ele morava em Londres) sobre o fato de que os guias teriam ficado : - “Completamente perdidos!!!”
No dia seguinte tivemos que voltar pela mesma arista que passamos para descer e Pedro estava bastante apreensivo. Eu (completamente recuperado) e Bernard procurávamos tranqüilizá-lo, pois dizíamos que para descer era bem pior do que para subir e que agora iríamos subir, ele nem perceberia...
Para subir fiz questão de não deixar a corda afrouxar nem um pouco para demonstrar ao guia que ele pode ter conhecimento de montanha, mas não conhece todas as pessoas na sua individualidade e que deveria ter sensibilidade de que somos todos diferentes uns dos outros. Apertei o passo e subimos sem escala num ritmo forte e frenético, existia um movimento de pessoas descendo, mas ele praticamente passava por cima de quem estava descendo e eu e o Irlandês acompanhamos o ritmo duro e carregado imposto pelo guia maluco. Não somos os primeiros a não gostar do serviço de guias de Montanha na França, particularmente eu não gosto quando perdemos a liberdade de opinar dentro da nossa própria excursão. Mas é importante deixar claro que pelo nível técnico que encontramos, seria impossível ter chegado até o ponto que chegamos e ter voltado em segurança sem os guias. É algo a ser observado. Mas é importante andar no seu limite e não no limite do guia...
Voltamos para Chamonix, e eu e Pedro pagamos um jantar para o Bernard, por ele ter achado o caminho da volta...foi merecido, depois no dia seguinte eles me levaram até Turim, dormimos lá e fizemos um passeio de turista normal, sendo que no dia seguinte me deixaram no aeroporto de Milão, de onde retornei para casa e encontrei as minhas meninas...Aconcágua 2010 – DEZEMBRO
Minha última aventura foi em dezembro de 2010, quando eu e o Bernard tentamos o cume do Aconcágua. Tem parte da narrativa nesse mesmo site, falta finalizar o texto.
Dicas para quem pretende aventurar-se
Não vá sozinho e contrate sempre um guia. Um bom guia...e de preferência indicado.
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